Memórias de um repórter de TV capítulo 2.

MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER DE TV - capítulo 1 - João Carlos Amaral.

Assistindo o programa gratuito do PMDB, pela TV, junto com o governador Tancredo Neves e dona Risoleta, no Palácio das Mangabeiras.

Você já teve o privilégio de assistir TV, com nada mais, nada menos, que o dr. Tancredo Neves e sua simpática mulher a saudosa dona Risoleta? E sendo servido de salgadinhos e suco de laranja por ela? Se você for parente ou amigo íntimo do casal não vale responder: sim! Pois  este repórter, agora também um blogueiro, teve este privilágio. Foi assim: noite fria, vento forte. 1984. Tancredo de olho no Colégio Eleitoral. Nosso diretor de jornalismo na Rede Globo Minas, Lauro Diniz, acertou com o J.D.Vital, chefe da Assessoria de Comunicação do governador Tancredo Neves, para que nós pudéssemos produzir uma reportagem durante o Programa Nacional, gratuito, do PMDB em rede nacional, com o governador assistindo o programa.

Lá fomos nós. Eu e a equipe da Globo. O cinegrafista Alípio Martins, câmera no ombro, jeito discreto, mas atento a todos os gestos e reações do dr. Tancredo. Só que o governador pediu para que deixássemos para o final da transmisão da TV para fazermos as imagens e então gravar a entrevista. É claro que a contragosto, concordei. Não havia outro jeito. Começa o programa. O saudodo deputado Ulysses Guimarães, ancora o programa.  Aparece em cena no final e cada pronunciamento colhido pela equipe de TV do PMDB.  Dr. Ulysses iniciava cada aparrição com a palavra NÃO. Não a esta política econômica, Não ao Colégio Eleitoral, Não ao regime militar e, assim foi durante os 60 minutos de programa televisivo. Não, Não, Não...

Dona Risoleta entra e sai a cada momento reabastecendo nossos pratinhos de salgadinhos e suco de laranja. Eu observo o então governador Tancredo Neves. Ele coçava a orellha, ora a direita, ora a esquerda. Acaricia o nariz, não fala nada. Só resmunga. Eu espero. Ví que ele estava incomodado com a linha desenvolvida pelo programa do PMDB na TV. Olho para meu relógio. Será que vai dar tempo para gravar a entrevista e mandar pelo satélite para o Jornal da Globo, no Rio? Olha, naquele tempo não havia ainda o celular, E-mail. ( penso hoje, como conseguia viver sem eles). 

Acaba o programa. Nos levantamos. Eu indago: vamos gravar dr. Tancredo?  A luz é acesa, câmera ligada, microfone em ação. Mas o governador se atencipa e diz não vou gravar entrevista sobre este assunto. Por favor desligue o equipamento. Desligamos. Aí o dr. Tancredo disse: NÃO VOU GRAVAR  NENHUM COMENTÁRIO, EM SINAL DE PROTESTO, PORQUE NENHUM PEMEDEBISTA MINEIRO TEVE  ESPAÇO NO PROGRAMA. Obrigado meu filho, e boa noite.                              Mas, governador... E ele emendou: foi um prazer ter a sua companhia e de sua equipe e repetiu polidamente: boa noite para todos! Respondí: boa noite! E voltei à redação da Rede Globo. Sem a reportagem. Foi um " furo" ao contrário.

Assim era ele, o dr.Tancredo. Tinha a exata medida do momento de falar  e de se calar! Afinal, nós como repórter político, sabíamos que o governador habilidosamente conduzia um processo de transição delicadíssimo, que passaria pelo Colégio Eleitoral, aonde mais  tarde ele derrotou Paulo Maluf. Qualquer fala, gesto, aparentemente simples que fosse, poderia criar obstáculo intransponível, ainda mais num canal de TV como a Globo, líder de audiência. Na verdade, o adversário dele, dr. Tancredo, era o próprio dr. Ulysses, o Sr. Diretas. Tancredo preferiu se calar. Não por medo, mas por estratégia, hoje compreendendo!
Comentário: se fosse hoje eu colocaria tudo no meu BLOG. Só que estávamos em 1984. Ou seja, 22 anos atrás... que blog, que tecnologia,