Memórias de um Repórter de TV cap.4

Daqui a um ano lançaremos o livro " Memórias de um Repórter de TV". Semanalmente vamos escrever os textos do futuro livro. Você que acessa nosso BLOG DE NOTÍCIAS tem a oportunidade de ler cada página em primeira mão aqui no nosso espaço. Confira!

                                                                              ARTIGO ESPECIAL

MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER DE TV                                                                                 João Carlos Amaral.

Nas várias vezes que o ex-governador do Rio, Leonel Brizola veio a Minas nós estávamos lá o entrevistando, como repórter da Rede Globo. Nos palanques, nas coletivas animadas e engraçadas, cheias de ironia que só Brizola sabia dar, nós acompanhávamos cada gesto, cada detalhe. "O velho caudilho", como era conhecido entre nós, jornalistas de política, não deixava pedra sobre pedra, quando se tratava dos adversários e/ou até mesmo inimigos políticos. 

O curioso é que na maioria das vezes que acompanhamos as entrevistas coletivas do ex-governador Brizola, a matéria não ia para o ar na Rede Globo. Como assim? Era o seguinte: Brizola não perdia a oportunidade de estocar o saudoso dono da Globo, dr. Roberto Marinho. É que Brizola não conseguia esconder, e nem fazia a menor força para esconder sua mágoa, com os Marinho, a quem ele atribuia má vontade na eleição dele ao governo do Rio de Janeiro, que gerou o caso Proconsult - que os fatos da época registrados pela mídia, diziam que a Globo tentou ajudar numa suposta manobra para retirar de Brizola a eleição ( verdade ou não, é o que crônica política registrou à época). 

Daí, sem mais nem menos, Brizola no meio de uma declaração saía com um comentário maldoso sobre a Rede Globo e o dr. Roberto Marinho. Nós, como repórter Político da Rede Globo, ficávamos de saia justa, sem o que dizer. Segurávamos firmes o microfone e não arredávamnos pé, sempre com o coração na mão, constrangidos, sem poder nada dizer. Cumpriámos a nossa missão, já pensando: como é que o editor vai dar esta entrevista falando mal do dono da casa? Eram tempos difíceis. E mais, acabava a coletiva e os colegas da mídia sempre provocavam: o governador Brizola disse que a Globo não vai por a entrevista no ar. E aí, João Carlos? ...

Lembro-me uma dessas entrevistas. Foi no Auditório da Assembléia Legislativa de Minas. Lá estávamos nós. Como era uma coletiva daquelas formais, colocamos os mcrifones na mesa, lotando a frente do ex-governador Leonel Brizola. Recebí a orientação só para gravar. Não fazer nenhuma pergunta para não provocar nenhum dos  corriqueiros comentários maldosos de Brizola sobre a Globo. Tudo ia bem.

De repente, a repórter do jornal O Globo, nossa colega Sulamita, se levanta, pega o microfone colocado à disposiçao dos repórteres. Se identifica e pergunta: dr. Brizola, o presidente Sarney disse que desta vez a economia vai deslanchar. Como é que o sr. analisa a fala do presidente da República?

Olha minha filha - disse Brizola irônico, com sua fala arrastada - nessa nem o dr. Roberto Marinho acredita! E emendou: mesmo ele sendo o principal avalista do governo Sarney! Reação imediata: a repórter de O Globo focou vermelha, sem o que dizer. E como eu era o repórter da TV Globo na coletiva, todos olharam em minha direção, inclusive o ex-governador Brizola, que emendou: olha quero ver você colocar está no ar! e riu...

Foi a maior saia justa que já vesti, sem querer é claro! Enfirei o rabo entre as pernas, como se diz aqui em Minas, peguei a equipe e mais uma vez, jurei para mim mesmo: quando eu sair da Globo foi contar este episódio. Confesso que fiquei com raiva do dr. Brizola, mas entendí, Como dizia o  presidente Tancredo Neves, " POLÍTICA NÃO É PARA AMADOR", é preciso ter estômago.

Pensei: é mesmo, político e repórter político também! E como a briga era "entre cachorros grandes", peguei a fita, coloquei debaixo do braço e levei para nossa redação, ainda na rua Rio de Janeiro no bairro de Lourdes, aqui em Beagá. 

Brizola foi "profético": a entrevista, é claro, não foi para o ar. Mas a fita foi gerada na íntegra para o alto comando da Rede Globo no Rio de Janeiro, para conhecimento dos chefes.  Hoje, com internet, os Blogs, os E-mails, como como é que seria a reação dos formadores de opinião? E mais: reconheço que se eu fosse o dono da Globo não tinha como colocar no ar uma entrevista ofensiva e, digamos, gratuita, movida pela raiva - justificável ou não - não sei, do dr. Brizola. Ficou para mim a lição: sem sangue frio, sem ética, sem coragem de suportar saias justas não dá para ser repórter, muito menos de TV.

Faço este registro, para dar uma fotografia da época. Mostrar o estilo de um político, em um mundo sem globalização, sem rede mundial de comunicação. De um mundo sem Internet,  E-mail, sem You Tube. O fax tinha acabo de chegar ao mercado e as duas rádios que eram porta-vozes das duas maiores nações do planeta eram a Voz da América, em Washington e a Rádio Moscou em Moscou, em plena guerra fria.  Um registro histórico, que só ficou na minha memória e dos josrnalistas e políticos - muitos já mortos - que estavam naquele auditório da Assembléia Legislativa naquela tarde  longinqua dos idos de meados dos anos 80. 

EM TEMPO: a fita com a coletiva de Brizola, certamente, está nos arquivos da Rede Globo no Rio de Janeiro. E um dia, quem sabe, vai virar história, de um tempo que ensaiva a democracia, haviam só quatro canais de TV no País, com a Globo absolutamente na frente e, nós repórter políticos ensaiavamos os primeiros passos na carreira. Uma vitrine - a Globo era e ainda é - fundamental para um jovem que buscava a fama, o reconhecimento. É como disse Fernando Pessoa;" tudo vale a pena se alma não é pequena". E a minha era grande! A nossa paciência bem maior. Mas, valeu a pena!