Memórias de um Repórter de TV cap.7

Segunda-feira, Abril 13, 2009

"MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER DE TV"

                                                                         ARTIGO ESPECIAL.                                                                           João Carlos Amaral

                                                         Uma pílula que vai compor nosso livro                                              e que você tem a oportunidade de ler em primeira mão.

📷Praça da Estação, em BH. Eleição presidencial de 1989. Era começo da noite. Como repórter político da Rede Globo, lá estava eu participando e ajudando a fazer história da democracia em nosso país. 📷No palanque estava todo o batalhão de choque do PT, tendo à frente seu comandante, o ex-operário pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva. Era um momento importantíssimo para os rumos da campanha,afinal Minas era e é, o segundo maior colégio eleitoral do país,à época com mais 10 milhões de votos. Tudo ia bem. 📷De repente, uma supresa, que ia ajudar a mudar todo o roteiro da campanha presidencial daquele ano. Foi assim: recebí um recado, via rádio (celular ainda era um produto que não existia). O recado era do diretor de jornalismo, Lauro Diniz. Pedia que repercutisse com o candidato Lula, a denúncia, que o seu adversário Collor de Melo mostraria no horário eleitoral - onde a ex-namorada de Lula, Míriam Cordeiro dizia que tinha uma filha com Lula, a LURIAM. 📷Fiz a pergunta ao candiato petista. Lula ficou perplexo. Se recompôs, tentou argumentar que era um golpe baixo de seu adversário, uma apelação covarde... O restante da fala não me recordo mais. Só o que ficou daquele momento histórico, que acabou pesando e muito para a derrota de Lula, foi expressão do rosto dele. Refletindo a amargura que se instalou na alma dele. Raiva, decepção, perplexidade, revolta... Um estado de espírito que prevaleceu na campanha e que culminou no debate com Collor pela Globo no final da disputa, antes da eleição. 📷Olha bem, Lula chegou para o debate decisivo -já que a Globo detinha a audiência de 80 milhões de pessoas - parecendo ausente, titubeante em muitos momentos e com a cabeça no outro mundo. O mundo psicológico. Mundo abalado pela denúncia de Míriam Cordeiro. 📷Estava tão preocupado,traumatizado, que não ouviu e nem rebateu a fala de Collor, que o acusou de ter adquirido um aparelho de som muito caro,que nem ele, Collor tinha recursos para comprar. Perplexidade geral! Lembram-se? Pois é. Ele poderia - diriam os chamados "profetas do fato consumado" - como Brizola fazia. Chamar o candidato do PRN, Collor de Melo, de filho da elite.  📷E dizer mais. Afinal era Collor e não ele Lula que tinha origem na classe abastada. Pois é: Lula ficou do lado ruim da espingarda - como diz meu amigo o cientista político Carlos Alberto Penna - e não conseguiu reagir. O trauma não deixou. Lula perdeu a eleição - é claro que não só por causa disso - mas que pesou, ah! pesou. 📷Conclusão: como repórter tenho a obrigação profissional de contar aquilo que ocorreu nos bastidores, que não coloquei no ar e que morreria comigo. Mostrar que era uma outra época, com pouca tecnologia  e bota pouca nisso. O jornalista não contava com celular, notebook, blog de notícias. 📷O espelho só tinha uma face. Nos restava a memória seletiva que se perde com o tempo, que levamos para o túmulo. Afinal,o repórter é apenas um coadjuvante, uma escada para que os poderosos cheguem à população. Mas, o sentimento dele é um fato, que só fica na cabeça dele. Aqui passo o que ví e ouví de um flash da nossa democracia que começava a se firmar  lá pelo começo dos anos 90. É isso!