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Morreu Dirceu Cheib, fundador do Bemol Studio. Ele tinha 84 anos. Fou pioneiro da gravação no Brasil




Túnel do Tempo: Dirceu em sua mesa de gravação de seu Studio Bemol fundado por ele em 1967.

O presidente JK foi um dos que estiveram no estúdio de gravações da Bemol, aqui em BH.

DIRCEU CHEIB E BEMOL STUDIO Um dos pioneiros da gravação no Brasil, fundado em 1967, quando existiam apenas quatro estúdios fonográficos no País e, também, pioneiro em gravações profissionais em Belo Horizonte, o Studio Bemol, completa em 2020, 54 anos de uma história brilhante.


Até agora, tinha à frente Dirceu Cheib, um de seus fundadores, testemunha ativa da história da música e respeitável engenheiro de som, o estúdio se tornou referência obrigatória no que diz respeito à história da produção fonográfica brasileira e, também, da música que vem de Minas. A sala é atestada por muitos dos grandes produtores - entre eles Marco Antônio Guimarães-Uakti, André Abujamra-Karnak e Dudu Marote - como uma das melhores salas acústicas do Brasil. Ao lado de Dirceu, até o último momento sempre fiel, o filho mais novo, o músico Ricardo Cheib, que também administra a Bemol, por onde passaram (e passam) inúmeros dos mais prestigiados artistas mineiros, reconhecidos em âmbito internacional, além de grandes nomes da música internacional e brasileira e onde gerações de artistas se conheceram. Mais de cinco décadas reúnem histórias muito especiais. Foi esse estúdio que registrou pela primeira vez, vários artistas mineiros, como o Uakti, Marcus Viana e Sagrado Coração da Terra, Esdra Ferreira–Neném, Fernanda Takai, entre muitos. Milton Nascimento, Gilvan de Oliveira, Wagner Tiso, Pacífico Mascarenhas, Toninho Horta – guitarrista contratado Bemol, no início da carreira, Clara Nunes, Fernando Brant, Ivan Lins, Dominguinhos, Danilo Caymmi, Nelson Angelo e Oswaldo Montenegro, Tavinho Moura, Juarez Moreira, Geraldo Vianna, Weber Lopes, Beto Lopes, Vander Lee, Antonio Villeroy, Belchior, Celso Adolfo, Skank, Karnak (André Abujanra), Saulo Laranjeira, Flávio Venturini, Nelson Gonçalves, Maurício Tizumba, Marina Machado, Regina Souza, Túlio Mourão, Tino Gomes, Sérgio Moreira, Sérgio Santos, Nivaldo Ornellas, Marco Antônio Araújo, Marku Ribas, Roberto Corrêa, Babaya, Fernando Araújo, André Dequech, Rufo Herrera, Selmma Carvalho, Ladston do Nascimento, Paula Santoro, Renato Motha e Patrícia Lobato, Tabajara Belo.


Titane, Chico César, Antonieta Silva (Grupo Instrumental Marina Silva), Edição Brasileira, a escritora Adélia Prado, Mauro Rodrigues, Waldir Silva, Amaranto, Pato Fu, Geraldo Vianna, Beto Guedes, Lô Borges, Paulinho Pedra Azul, Célio Balona, Oswaldo Montenegro, Luís Caldas, Tadeu Franco


E até o Presidente JK, estão entre os incontáveis nomes que passaram pelo Estúdio, que, também incluem artistas internacionais, tais como: Heikki Sarmanto (maestro finlandês), Scott Anderson (guitarrista de Chicago), Philipp Glass (produtor de estúdio).

Importante registrar, também, que entre as trilhas de cinema gravadas no Bemol, estão: Lavoura arcaica (Marco Antonio Guimarães), Cabaré Mineiro (Tavinho Moura), A Dança dos Bonecos (Nivaldo Ornelas) e O Vestido (Túlio Mourão), O viajante (Tulio Mourão). Das trilhas para o Grupo Corpo: Bach (Marco Antonio Guimarães), 21 (Uakti), I ching (Uakti) e Maria Maria (Milton Nascimento) A história de mais de 50 anos do Bemol é construída sobre o pilar sólido de empreendimento responsável, experiência, competência, atitude e olhar atento à evolução dos tempos. O Studio Bemol foi o primeiro estúdio brasileiro a utilizar gravadores transistorizados, lançados na época da inauguração, mas, não parou por aí. Reconhecido entre os melhores do mundo, observou com critério a evolução, exercitando a aplicação das tecnologias do analógico ao digital, aperfeiçoando cada vez mais o uso do bom senso, ante os milagres das novas tecnologias. “Tecnologia não é tudo”, afirmava Dirceu. O Bemol possui hoje os mais avançados recursos digitais, mas, com a observação da qualidade em foco, vários dos processos e equipamentos utilizados nos trabalhos, são analógicos. Junto ao segredo do sucesso do Bemol, certamente estão os seres humanos que o administram.


Os Cheib são a alma do estúdio e fazem a diferença. Funcionando em uma sala de gravação muito bem projetada acusticamente – uma das melhores salas acústicas do Brasil - a Bemol atua sob o comando de técnicos experientes e sensíveis.

HISTÓRIA O fundador, Dirceu Cheib, era natural de Belo Horizonte/MG - na ocasião estudante de Direito, em parceria com o irmão, Afrânio Cheib e o amigo, o advogado Célio Luis Gonzaga resolveram montar uma gravadora.


A idéia surgiu quando, em São Paulo, Célio Gonzaga conheceu o maestro Edmundo Peruzzi que os convenceu a iniciar o empreendimento.


O incentivo veio a partir da constatação do sucesso que Peruzzi obteve, com a gravação do LP ‘Violinos no Samba’, pela RGE. Tratava-se de uma idéia inusitada que fez sucesso mundial: uma orquestra sinfônica, com uma cozinha de samba, tocando 12 sucessos da música erudita.


Os três sócios – Dirceu, Afrânio e Célio criaram em BH o Selo MGL-Minas Gravações Ltda, que se tornaria o embrião do Bemol.


Quando os trabalhos começaram, o Selo que, em seguida passou a chamar-se Palladium, criava coleções de discos e contratava vendedores para visitas domiciliares em todas as regiões do Brasil.

Havíamos comprado um quarteirão no município de Betim, para montarmos uma indústria de prensagem de discos. Com as dificuldades no período ditatorial, tivemos que vender tudo” , registrou Dirceu Cheib, ao contar a história nas bodas de ouro do Bemol. O Selo, então, deu lugar ao Estúdio.


A produção dos discos era sempre oriunda de outros estados. A criação do Studio Bemol também facilitou a renovação dos títulos e gravações externas que oneravam os custos com deslocamento das equipes. Como selo, a empresa bancava o artista e todo o investimento na obra.


Houve, de fato, forte crise no mercado, com a ditadura. No estúdio, na época das “vacas magras”, a salvação foi a publicidade e a produção de vts e jingles. Na década de 80, surgiram os artistas “independentes”, que gravavam e bancavam o próprio trabalho renovando as condições de atuação do Estúdio que explodiu em novas e inéditas produções.

Da sociedade, também a partir da década de 80, com a saída dos dois sócios de Dirceu, os filhos: Ricardo Cheib (percussionista e engenheiro de som) e Lincoln Cheib (atual baterista da banda de Milton Nascimento) se integraram ao Bemol, hoje administrado por Dirceu e Ricardo. DIRCEU CHEIB O Bemol nasceu quando não havia literatura ou informação sobre as tecnologias para montar um estúdio de gravação.


A pesquisa era difícil e o estúdio aconteceu com o empenho e persistência do fundador Dirceu Cheib e os sócios. Dirceu pode ser literalmente considerado um “engenheiro de som”, pois, iniciou seus trabalhos quando o profissional para lidar com áudio e gravações precisava conhecer, além de música, muito da eletrônica contida nos aparelhos.


Durante os seis meses de montagem do estúdio e, principalmente, da mesa de gravação, Dirceu iniciou aulas de Eletrônica básica com Canazarro, engenheiro que veio para Minas Gerais, dirigir os trabalhos.


O aperfeiçoamento aconteceu com muita experiência prática e, a partir de 1974, com viagens a Chicago, onde mora o Geraldo de Oliveira, músico, engenheiro de áudio e amigo de Cheib que sempre o acolheu e o encaminhou a excelentes estúdios.


Gravando de orquestras a grupos de samba, passando por instrumental, MPB, pop, sertanejo ou heavy metal, trilhas para cinema, peças publicitárias, campanhas políticas, Dirceu ao longo dos anos acumulou uma vasta experiência nos mais variados tipos de trabalho dentro de um estúdio.


Ao desempenhar funções de engenheiro de som, produtor ou técnico de manutenção, ele acompanhou os vários estilos musicais passando por seu estúdio, também viu concorrentes surgirem e desaparecerem da noite para o dia.


Durante muitos anos o estúdio trabalhou no mercado mineiro quase que sem concorrentes, ao contrário de hoje, quando os estúdios se multiplicam diariamente. O diferencial do Bemol soma a sala de gravação bem projetada acusticamente à experiência dos técnicos e ao ambiente acolhedor, carismático e de confraternização que a história deste estúdio construiu. “Presenciei as válvulas se tornando “coisa do passado” para alguns e também, vi o surgimento dos solid-state e, recentemente, vi o retorno das válvulas à moda. Vi o digital engatinhando no inicio dos anos oitenta e seu crescimento. Meu trabalho tem como referência o bom senso. Embora utilize uma série de ferramentas digitais, vários processos e equipamentos empregados no Bemol são analógicos, por escolha.” (Dirceu Cheib) O ESTÚDIO Inaugurado em 1967, no Bairro Caiçara, o Studio Bemol se mudou para o Bairro de Lourdes, em 1981, ocupando uma casa alugada do músico Pacífico Mascarenhas, adaptando sua construção ao modelo do estúdio da Universal em Chicago e, em 1992, a equipe construiu a nova sede, instalada no Bairro Serra, seu atual endereço. A primeira console foi montada em BH, com os componentes importados; Pres valvulados Langevin,VCs Gotham e outros contemporâneos. O primeiro estúdio Bemol foi projetado pelo técnico de eletrônica, com experiência em gravação, Sérgio Lara Campos.


Havia uma mesa com 12 entradas e 4 Bus, 2 gravadores Ampex transistorizados de Rolo ¼ de polegada, os primeiros do Brasil, na época, Stereos e excelentes microfones, incluindo 4 ELLA Telefunken. Toda a orquestra (ou banda) se reunia dentro do estúdio e tudo era gravado de uma vez, no primeiro Ampex o segundo gravador era usado para juntar voz e Banda. “Se alguém errasse....todo mundo tinha que tocar tudo novamente”, costumava contar, Dirceu Cheib. O atual Studio Bemol foi projetado pelo arquiteto, músico e professor universitário Dr. José Osvaldo Moreira. Em plena atividade, hoje, a Bemol conta com 84 metros quadrados de estúdios, mesas digitais e analógicas e atua atenta ao principal: a união da qualidade na apresentação final à fidelidade ao som original. UM DOS SONHOS DO DIRCEU ERA A PRODUÇÃO DE UM LIVRO, CONTANDO TODA A HISTORIA DO ESTUDIO BEMOL.